terça-feira, 11 de março de 2014

Dias infernais




                        
- Não me engane, eu sei o que aconteceu. Não vale a pena mentir, quanto mais mentiras, pior para você.
Mais uma vez meu namorado dava um de seus ataques. Sabia que nada ia ser fácil, mas resolvi arriscar mesmo assim, ele não poderia ser tão ruim. Além de tudo, eu o amo...
- Você está me escutando? - A voz rancorosa do homem invadiu meus ouvidos.
- Er... Desculpe. 
- Bom mesmo ir se desculpando, estou meio cansado de você. A surra que te dei ontem não foi suficiente?
A surra de ontem... Lembro-me de cada detalhe. Desde o momento que o ciúme começou a aparecer até o momento que ele pegou uma faca e me cortou. Mais uma cicatriz.
- Não vai me responder? Estou com cara de quem está brincando?
- É... Não, claro que não. 
- Então me responda mulher idiota!
- Sim, foi suficiente, além disso eu posso explicar...
- Claro que não pode, eu vi você o abraçando!
Obviamente aquilo não significa nada, esse homem tem quem que parar de ser tão ciumento. Além de tudo... Estou com medo.
- Foi só um abraço entre amigos! - Gritei, sem pensar em consequências e isso foi minha burrice.
Os olhos de meu namorado se arregalaram com extrema fúria, seu rosto ficando cada vez mais vermelho e em apenas alguns segundos senti o peso de sua mão bater em meu rosto velozmente. 
Dor. Um pouco de formigamento desviava parte da dor em minhas bochechas, mesmo assim eu sabia que iria ficar vermelho por um tempo.
Poucas lágrimas ousavam em escorrer, mas a culpa era minha, todos dizem que eu que o provoco, por isso ele me castiga. É assim que funciona.
- Porque está chorando? Você que pediu. Nunca mais ouse falar assim comigo. - Ele rosnou e saiu de minha casa lançando-me um olhar de ódio.
Medo. Tristeza. Dor. Lágrimas. Desespero. Tudo minha culpa.
Depois de esperar a ardência diminuir, fui à cozinha, lavei meu rosto e esperei que a água escorresse lentamente, esperando que levasse com ela todas as memórias do dia de hoje, mais um dia infernal que aguentei por puro amor...
Na manhã seguinte acordei com a ferida do dia retrasado infeccionada e cheia de pus, o rosto doído e com um semblante terrível. O que as pessoas iam pensar? Sou uma mulher terrível.
Depois de um banho demorado e quilos de maquiagem saí para o trabalho.
Já estava atrasada quando esbarrei em uma moça no elevador do prédio onde trabalho. Seus olhos eram castanho escuro, cabelos ondulados, presos em um rabo de cavalo, mas o que mais me chamou atenção foi um pequeno broche com um símbolo rosa, com uma mulher.
- Desculpe. - disse.
- Tudo bem. 
- Er... Sem querer incomodar, mas... O que significa o símbolo do seu broche?
- Ah, é o símbolo do feminismo. Eu também queria te fazer uma pergunta se não te incomodar.
- Pode perguntar.
- Quando esbarrei em você vi um corte no seu braço e acho que está meio infeccionado... Quer que eu te leve ao pronto socorro
Isso não era bom, ela tinha notado.
- Er... Não, está tudo bem. - respondi dando uma olhada para o braço. Na verdade, não estava nada bem.
O elevador se abriu e ela saiu, e apesar de tudo algo me deixava curiosa. O que significa feminismo?
- Olá senhor Gomes. Antes de começar o serviço posso usar seu computador rapidinho?
- Claro, mas tem que ser rápido mesmo.
Assenti e fui ao computador. Por sorte ele já estava ligado então apenas pesquisei o que queria. Em poucos segundos várias páginas sobre feminismo até que eu vi, em uma delas um artigo sobre violência contra a mulher.
A cada palavra que eu lia, percebia cada vez mais que o que meu namorado fazia comigo era errado. Que eu não deveria suportar aquilo. E agora eu sei o certo, todos que eu perguntei mentiram.
Agora não vai ser mais assim.

Nenhum comentário :

Postar um comentário

Faça a alegria dessa escritora!
Poste um comentário, mas... tenho algumas regrinhas
*nada de xingamentos
*se for criticar, apenas críticas construtivas
*coloque o link do blog para eu poder te visitar
Arigato